Faz alguns dias fui jantar com um casal de amigos e parte da
conversa girou em torno do sentimento de aversão que muitos funcionários desenvolvem
em relação à empresa que trabalham. Ainda que eu percebesse em suas reclamações
o desejo de ouvir de mim algum conselho psicológico, não havia muito o que
dizer, pois um dos presentes já demonstrava sintomas de que o ambiente de
trabalho estava prejudicando sua saúde.
A queixa principal referia-se à forma pela qual seus
superiores puniam falhas, menosprezavam problemas de saúde e impunham metas difíceis
de serem atingidas. Para agravar o quadro, em sentido oposto, o grupo controlador
da empresa tentava difundir uma política de incentivo a ações motivacionais, as
quais, na prática, ficavam apenas nos folhetos, nos cartazes e nas ameaças
recebidas nas reuniões de departamento.
Não pude evitar perguntar se aquilo era coisa de seus gestores
imediatos e se a direção superior tinha conhecimento do que se passava. A
resposta foi a já esperada, ou seja, o “patrão” agia da mesma forma. Ainda
insisti tentando saber se havia reclamações por parte dos clientes, pois
obviamente funcionários descontentes não tem ânimo para serem atenciosos, podendo
diminuir o lucro para a empresa. Porém, a empresa pertencia a uma cadeia da
área de varejo, cujo diferencial estratégico era focado nos preços baixos. Em
outras palavras, o cliente comprava pelo preço e não pelo atendimento.
Nesse ponto imagino que você, leitor, deve ter criado
expectativas em relação às minhas críticas sobre a estratégia adotada pela empresa.
Lamento decepcioná-lo, mas, se você passa por algo semelhante meu conselho será
o mesmo que dei para meus amigos: “se você acredita que é bom no que faz, procure
outro emprego pois a empresa não te merece”.
Se a empresa está tendo lucro, mesmo tratando mal seus
funcionários, vai continuar tratando mal. Não há recompensa imediata para o “patrão”
em mudar sua forma de lidar com a equipe. É certo que a empresa estaria melhor
preparada para os momentos de crise se modificasse o clima organizacional.
Porém, para tanto, a primeira mudança deveria acontecer na forma de liderar do “Número
Um”, ou seja, o patrão.
Meu trabalho é estudar o comportamento do mercado e, para
isso, pesquiso programas de MBA, livros que ensinam alcançar o sucesso,
consultorias, programas de treinamento, coaching, liderança positiva, entre
outros. O que vejo em comum entre todo esse leque de possibilidades é o fato de
que os testemunhos geralmente são de empreendedores que estavam passando por dificuldades.
Eu não lembro de algum que tenha dito “estava tendo muito lucro, mas percebi
que precisava mudar e melhorar a relação com meus funcionários”.
Porém, a coisa é bem diferente se o “dono do negócio” ou,
como preferem meus amigos, o “patrão”, já possuir em seu histórico, ou mesmo em
sua formação, o conhecimento necessário para promover um ambiente adequado.
Provavelmente esse patrão saberá como propiciar um ambiente de trabalho psicologicamente
saudável, terá consciência de que o reforço positivo aumenta a eficiência geral,
diminuindo o “turnover”, as perdas de produtos, de matéria prima e energia.
Por outro lado, mesmo sem ter experiência ou formação
adequada, se o empresário possuir a perspicácia para compreender que a mudança na
cultura organizacional começa pela ponta da pirâmide, saberá que ele, mais do
que todos, precisa sair da zona de conforto, manter-se em constante treinamento
e, se possível, contar com uma boa assessoria.
Dessa forma o “patrão”, além de alcançar melhores resultados
financeiros e estabilidade em momentos de crise, estará convivendo com pessoas
que amam o que fazem e sentem prazer em ir para o trabalho.