quinta-feira, 6 de junho de 2019

NOSSOS ÍDOLOS JÁ NÃO SÃO OS MESMOS; E AS APARÊNCIAS ENGANAM SIM.


Talvez poucos reconheçam a origem da frase usada no título deste artigo. Durante muitos anos ouvimos a música de Belchior nas rádios dizendo que ainda éramos os mesmos e vivíamos como nossos pais. Parece que a Internet e o Marketing Digital vieram para mudar essa regra.

Já se passaram muitos anos desde que, lá pelos anos 2000, fui convidado a assistir a uma palestra de um sujeito que supostamente iria falar sobre a qualidade dos serviços. Daquela noite me recordo de apenas duas coisas, do excelente músico tocando saxofone enquanto as pessoas entravam no auditório, e do palestrante gastando metade do tempo da apresentação em uma explicação detalhada sobre como se limpar com qualidade usando o papel higiênico.

A plateia dava gargalhadas e mais gargalhadas contagiando até mesmo os que não achavam graça da demonstração escatológica usada para exemplificar controle de qualidade dos serviços. Essa foi, talvez, a primeira vez em que me perguntei se um palestrante devia focar em entregar o que os ouvintes desejavam ouvir ou no que precisavam aprender.

Senti-me seguro de que havia escolhido certo ao optar pela carreira de pesquisador e fazer um doutorado. Também percebi que dificilmente falaria para públicos grandes, já que poucos seriam os que teriam consciência do que realmente precisavam ouvir.

Hoje vejo-me novamente apreciando situação semelhante, desta feita nas redes sociais e em estratégias de Marketing Digital. Nunca me pareceu tão verdadeiras as palavras de Umberto Eco ao afirmar que “as redes sociais deram voz a uma legião de imbecis”.

Longe de querer criticar as novas tecnologias, confesso ser usuário aficionado. Atualmente estou em um ano sabático e, ainda que não tenha sido exatamente planejado, vejo-me tendo experiências que jamais as haveria de ter se permanecesse acomodado em minha sala de doutor recebendo meus orientandos. Diferente de outros colegas que saem em viagens de autoconhecimento ou ainda optam por fazer cursos de aperfeiçoamento, usei essa oportunidade para mudar de país, escrever e entrar de cabeça no uso das redes sociais.

Na luta diária pelos “likes”, seguidores e novos inscritos, percebi que as redes sociais têm similaridade com aquele palestrante que falava, literalmente, merda. As métricas de audiência e engajamento são proporcionalmente maiores quando o conteúdo é de qualidade, no mínimo, duvidosa. Não se trata de mera opinião, mas sim resultado de testes, análise e metodologia de pesquisa-ação. Os meus seguidores no Instagram e inscritos no canal do YouTube estão acompanhando essas experiências.

O Marketing Digital é uma realidade que veio para ficar. Qualquer empreendimento que queira se manter e alcançar os resultados esperados, não pode prescindir das estratégias de engajamento digital. A Internet não substituiu outros veículos tradicionais, mas passou a ser o centro nervoso de todo o sistema de mídia e comunicação. Porém, como dizia Zygmunt Bauman, “as redes sociais são uma armadilha”. Para o autor da ideia de modernidade líquida, a questão está na facilidade com que as amizades vêm e vão. Basta um clic do mouse para seguir, deixar de seguir, bloquear, replicar notícias falsas, terminar um relacionamento ou comprar de outra loja.

Você, leitor, pode estar agora a me perguntar: por que é que nossos ídolos já não são os mesmos? A resposta é simples: Hoje em dia qualquer “zé-mané” falando bobagens, com muitos seguidores digitais, pode ser artista, coaching, guru, mentor, mestre, filósofo e, até mesmo, presidente.

(Alipio Veiga, 2019)