Talvez poucos reconheçam a origem da frase usada no título
deste artigo. Durante muitos anos ouvimos a música de Belchior nas rádios dizendo
que ainda éramos os mesmos e vivíamos como nossos pais. Parece que a Internet e
o Marketing Digital vieram para mudar essa regra.
Já se passaram muitos anos desde que, lá pelos anos 2000,
fui convidado a assistir a uma palestra de um sujeito que supostamente iria
falar sobre a qualidade dos serviços. Daquela noite me recordo de apenas duas
coisas, do excelente músico tocando saxofone enquanto as pessoas entravam no
auditório, e do palestrante gastando metade do tempo da apresentação em uma
explicação detalhada sobre como se limpar com qualidade usando o papel
higiênico.
A plateia dava gargalhadas e mais gargalhadas contagiando até
mesmo os que não achavam graça da demonstração escatológica usada para exemplificar
controle de qualidade dos serviços. Essa foi, talvez, a primeira vez em que me
perguntei se um palestrante devia focar em entregar o que os ouvintes desejavam
ouvir ou no que precisavam aprender.
Senti-me seguro de que havia escolhido certo ao optar pela carreira
de pesquisador e fazer um doutorado. Também percebi que dificilmente falaria
para públicos grandes, já que poucos seriam os que teriam consciência do que
realmente precisavam ouvir.
Hoje vejo-me novamente apreciando situação semelhante, desta
feita nas redes sociais e em estratégias de Marketing Digital. Nunca me pareceu
tão verdadeiras as palavras de Umberto Eco ao afirmar que “as redes sociais
deram voz a uma legião de imbecis”.
Longe de querer criticar as novas tecnologias, confesso ser usuário
aficionado. Atualmente estou em um ano sabático e, ainda que não tenha sido
exatamente planejado, vejo-me tendo experiências que jamais as haveria de ter
se permanecesse acomodado em minha sala de doutor recebendo meus orientandos. Diferente
de outros colegas que saem em viagens de autoconhecimento ou ainda optam por
fazer cursos de aperfeiçoamento, usei essa oportunidade para mudar de país, escrever
e entrar de cabeça no uso das redes sociais.
Na luta diária pelos “likes”, seguidores e novos inscritos,
percebi que as redes sociais têm similaridade com aquele palestrante que falava,
literalmente, merda. As métricas de audiência e engajamento são proporcionalmente
maiores quando o conteúdo é de qualidade, no mínimo, duvidosa. Não se trata de
mera opinião, mas sim resultado de testes, análise e metodologia de pesquisa-ação.
Os meus seguidores no Instagram e inscritos no canal do YouTube estão acompanhando
essas experiências.
O Marketing Digital é uma realidade que veio para ficar.
Qualquer empreendimento que queira se manter e alcançar os resultados esperados,
não pode prescindir das estratégias de engajamento digital. A Internet não
substituiu outros veículos tradicionais, mas passou a ser o centro nervoso de
todo o sistema de mídia e comunicação. Porém, como dizia Zygmunt Bauman, “as
redes sociais são uma armadilha”. Para o autor da ideia de modernidade líquida,
a questão está na facilidade com que as amizades vêm e vão. Basta um clic do
mouse para seguir, deixar de seguir, bloquear, replicar notícias falsas, terminar
um relacionamento ou comprar de outra loja.
Você, leitor, pode estar agora a me perguntar: por que é que
nossos ídolos já não são os mesmos? A resposta é simples: Hoje em dia qualquer “zé-mané”
falando bobagens, com muitos seguidores digitais, pode ser artista, coaching,
guru, mentor, mestre, filósofo e, até mesmo, presidente.
(Alipio Veiga, 2019)
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